quinta-feira, 28 de março de 2019

Todos os revisores têm dúvida

Entre dois candidatos que acertaram o mesmo número de questões de um teste a uma vaga de revisor de texto, quem você escolheria: o que respondeu todas as questões ou o que respondeu só as que, provavelmente, ele sabia?

Sem querer saber em qual faculdade o candidato havia se formado, quando eu era consultado em uma das empresas onde trabalhei, aconselhava a chamar a segunda opção, porque, a meu ver, quem corrige não deve errar, ou seu trabalho não vai merecer (muito) crédito.

Mas como não errar se, por mais experientes que sejam, todos os revisores têm dúvida, alguns mais que outros?

Aliás, no tempo em que ainda havia livrarias no centro da capital paulista, tomei um susto quando encontrei “Todo o Mundo Tem Dúvida, Inclusive Você”, cujo autor, que já partiu deste mundo, tem o mesmo nome que eu.

Nem vem, que não tem (a vírgula é minha), você que é revisor ou sonha em exercer este penoso e desvalorizado ofício. 

Quando estiver colocando sua cabeça à prova, não responda nada que o deixar na dúvida, a não ser que seja obrigado, fazendo na base do achismo.

Revisor não tem de achar nada. 

Se você não tiver certeza de, por exemplo, como está registrada uma palavra no “Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa”, referência oficial para concursos e provas, da colocação correta da vírgula e do pronome oblíquo átono, da regência abonada de um substantivo, adjetivo, advérbio ou verbo, da concordância de uma palavra com outra, da veracidade de uma informação, não faça nada, pois é preferível você deixar seu avaliador pensar que você não sabe tanto quanto ele precisava que você soubesse a deixá-lo pensando que você é daqueles que, em caso de dúvida, corrigem sem antes consultar uma fonte confiável (adivinhe por que a mesa dos revisores que não se acham incorrigíveis está sempre cheia de dicionários, livros de gramática, manuais de redação e estilo etc., os quais só não os ajudam a se livrar dos inevitáveis erros de giditação).

segunda-feira, 11 de março de 2019

Como acabei amando a profissão com que nunca sonhei

Se daqui até o fim do que quer que seja que eu tenha vindo fazer neste mundo eu não me apaixonar por outra profissão, devo morrer trabalhando no ofício que pedi a Deus quando me cansei de fazer faxina em meu primeiro emprego, trabalho que eu fazia quando não estava atrás do balcão, vendendo pão e leite. Mas, antes de, sem querer saber se eu era autodidata, o destino me mandar revisar texto, trabalhei em uma rede de comércio varejista e em uma loja de conveniência, onde minha carreira de atendente foi interrompida. Sempre incomodado com os erros de português que encontrava nos livros, jornais e revistas de que era leitor, eu já ficava de olho nos meus quando nem sonhava em ser revisor, corrigindo as cartas que escrevia para os amigos, os releases que redigia para uma festa que coproduzi entre 1991 e 1992 e os textos para um fanzine que editei entre 1993 e 1995, apesar de nos tempos de escola não ter tirado boas notas em redação e interpretação de textos, principalmente aqueles que, pela linguagem de outro mundo e falta de clareza, só o próprio autor consegue entender. E não sonhava mesmo, porque, se tivesse sonhado, teria feito uma faculdade, visto que parte dos interessados em disputar uma vaga nesta profissão já começa a ser eliminada no próprio anúncio de quem a oferece, que, independentemente de pedir que o candidato tenha experiência ou não, exige que ele tenha formação de nível superior, de preferência, em Letras, achando que quem concluiu só até o ensino médio ou cursou outras áreas não domina a gramática da própria língua. Com a experiência de quem só havia lido os manuais de redação e estilo dos principais meios de comunicação do país, como “O Estado de S. Paulo”, “Folha de S.Paulo”, “O Globo”, “Zero Hora” e Editora Abril, em 1995, enviei um currículo para um escritório de tradução e legendagem de filmes que havia anunciado no jornal uma vaga de revisor de texto. Aprovado no teste, estreei na carreira corrigindo legendas de filmes. Há mais de 20 anos sofrendo as penas deste abençoado ofício, como ter pouco conhecimento, muitas dúvidas, mente traiçoeira, encarar textos ininteligíveis, ambiente barulhento, prazos curtos, madrugadas, fins de semana, feriados e atrasos no pagamento e ser privado dos passeios e das festas com a família, só não amo mais minha profissão porque trabalho menos do que gostaria.

domingo, 24 de fevereiro de 2019

Empecilhos para quem procura trabalho

Só aprendi a escrever a palavra “empecilho”, com “c”, depois da terceira, e última, tentativa de entrar na empresa para a qual mais tempo trabalhei como revisor, mas a correção só de um textículo (cerca de 340 palavras) me fez perder um trabalho temporário no mesmo bairro onde eu já havia perdido outra oportunidade de cobrir férias de outro revisor, ou revisora, em outra agência, com a diferença de que, na primeira agência, o que me fez deixar a vaga para outro colega de ofício não foi minha incapacidade de entender as instruções da recrutadora para corrigir os outros anexos que faziam parte do teste (dois folhetos de ofertas e uma tabela), enviado para meu endereço eletrônico, mas, segundo a pessoa que me chamou para uma entrevista, a distância e a falta de familiaridade com os computadores que a empresa usava, da, como gosto de chamar, “maçã mordida”.


O empecilho da distância, até a tradutora que me havia enviado o anúncio que alguém do grupo de que ela participava em uma rede social tinha postado já esperava, uma vez que ela escreveu: “Sei que não é muito e talvez um pouco longe, mas não custa repassar, veja se interessa.”.


Bote longe nisso, mas, como eu disse ao recrutador da agência, se minha amiga soubesse quanto dinheiro eu estava ganhando com os bicos que, para compensar a pouca quantidade de textos que apareciam para revisar, eu estava fazendo e quantas conduções eu pegava (ônibus-metrô-trem-trem-ônibus) para ir trabalhar em Alphaville quando morava em Embu das Artes, não teria dito que o rico e famoso bairro onde pobre só se sente bem-vindo como empregado ou prestador de serviços era longe, porque quem precisa não mede distância. 

Com mais de duas décadas de sucessos e fracassos em minha incansável carreira de revisor, já me acostumei tanto com estes e outros empecilhos que podem fazer parte da vida de quem procura emprego, como falta de experiência, de indicação, de diploma de ensino superior e de outro idioma e idade avançada, que, quando um deles me faz, poeticamente falando, voltar para casa abatido, me levanto e continuo andando, pois, como disse um dos entrevistadores que já me reprovaram, quem não para de caminhar sempre chega a algum lugar.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Da mesa da revisão para a da cozinha


Nestes tempos de pouco trabalho e muita concorrência, já cheguei a ocupar mais a mesa da cozinha do que a da revisão.
  
Nunca fui fã da turma que faz sucesso escrevendo livros para ensinar os outros a ganhar dinheiro, mas a ideia de vender lanches para ajudar minha mulher, que, quando o assunto é dinheiro, é o homem da casa, a pagar as contas surgiu depois que li “Você Merece uma Segunda Chance”, do consultor e palestrante César Souza, que me foi apresentado pela segunda orelha do livro como “um dos maiores especialistas brasileiros em Estratégia, Liderança e Gestão, Cultura da Clientividade e Empreendedorismo”.

A primeira coisa que fiz quando peguei o livro que ganhei de um dos vizinhos para os quais já prestei serviços foi rir do título, porque, enquanto o autor conta algumas histórias de pessoas que mereceram uma segunda chance, como Jean Valjean, personagem do clássico do escritor francês Victor Hugo “Os Miseráveis” que, condenado a 19 anos de prisão por roubo e várias tentativas de fuga, tem sua vida mudada para melhor depois de o bispo que o havia acolhido quando ele vivia marginalizado não tê-lo acusado de um furto que ele havia praticado, rezo para ter uma terceira, e última, embora lamente que 98% das pessoas nas quais mais confiei quando não tinha mulher e filhos me provaram que não deveriam ter merecido nem a primeira chance. 

Para não morrer, o que, segundo o autor, acontece com quem não se reinventa, na mesma semana em que acabei a leitura do livro, peguei o dinheiro de uns trabalhos de conclusão de curso que havia corrigido e comprei alguns produtos para fazer lanches para vender para os moradores do condomínio onde vivo. 

Quando vi minha mulher correndo para me ajudar a anotar pedidos, fritar hambúrgueres, lavar alfaces, cortar tomates, passar maionese no pão e colocar ketchup, mostarda, guardanapos e embalagens à mesa, deixando para mim apenas o trabalho de fazer o molho e o purê do cachorro-quente, a linguiça acebolada e as entregas, já comecei a pensar em mudar de profissão. 

Ainda bem que não deixei meu bom e velho ofício, porque, aos poucos, os pedidos foram diminuindo, obrigando-me a inventar outra coisa para fazer ou voltar à mesa da revisão. 

Graças à ajuda de Deus no céu e – por que não? – à de algumas pessoas na terra, ainda não morri, continuo pagando minhas contas com o dinheiro que ganho revisando textos.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Quem indica amigo é

Quem quiser ser, ou continuar sendo, meu amigo, por favor, não me diga que se lembra de mim quando sabe de uma oferta de trabalho para revisor de texto, porque, fale sério, quem se lembra de mim mesmo são as pessoas que já me indicaram para algum emprego, como uma tradutora que desde que ela era DJ em algumas das festas que eu mais frequentava quando era casado só com o trabalho me informa toda vaga de que ela tem conhecimento.

Se os dois primeiros trabalhos de revisor de texto, ofício que exerço desde 1995, ambos em empresas de tradução e legendagem de vídeo, não tivessem sido conseguidos por mim mesmo, eu poderia dizer que, ao longo destes meus mais de 20 anos de carreira, tudo o que fiz foi só por indicação, o que não quer dizer que quem me indicou trabalhava na empresa para a qual me havia indicado, porque, por mais que você tenha uma rede de amigos, reais ou virtuais, de causar inveja, dificilmente algum deles vai querer, nem pagando – amigo, amigo; trabalho, à parte – indicar você para a empresa onde ele trabalha, a fim de não correr o risco de ficar mal na firma se você acabar não tendo sido uma boa aposta. 

Quando o assunto é indicação, ninguém melhor para falar, inclusive mal, de seu trabalho do que quem trabalha ou já trabalhou com você. 

Sou agradecido a quatro colegas, todos da empresa onde trabalhei durante 16 anos, por me indicarem para uma lida: uma tradutora que me apresentou ao escritório de design do irmão dela; uma revisora que me apresentou a uma editora de revistas de arquitetura para a qual ela havia ido trabalhar como jornalista, profissão em que ela havia se formado; um marcador de legendas que me chamou para revisar a versão brasileira de uma revista que ele coeditava fora do país; e um marcador que me chamou para revisar o texto dos filmes que ele traduzia. 

Já o trabalho que consegui em uma assessoria de imprensa foi graças à indicação de uma jornalista cujos textos eu havia corrigido em minha rápida passagem pela redação de uma revista sobre jornalismo. 

Perdendo a conta de quantos trabalhos já fiz, inclusive como transcritor de áudio, graças à indicação de quem confia em minha competência profissional, eu não poderia fechar este texto sem mencionar nenhuma indicação feita por mim, como a de dois jornalistas que trabalharam para um dos escritórios aos quais cheguei por apresentação. 

É na hora que é indicado para um trabalho que você vê como alguns amigos servem não só para festas.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

A primeira roubada um revisor nunca esquece


A primeira roubada um revisor de texto nunca esquece. Foi em 1995, quando, antes de fechar as portas, o escritório onde estreei no ofício me deu um cheque sem fundo. Mas não foi tão inesquecível quanto a segunda, que aconteceu em 2000, quando fui dispensado de uma revista sem receber nada, nem um “obrigado”. Minha história com a publicação, da qual eu era leitor desde 1987, ano em que ela chegou às bancas, começou quando “a turma que não escrevia direito”, como gosto de chamar a equipe jornalística que ajudou a escrever os primeiros onze anos da revista, já não fazia parte do expediente dela. Cansado de ver tantos erros de português do começo ao fim do periódico, telefonei para a redação para dizer que a revista estava precisando de um revisor. Nem bem me apresentei ao diretor de redação, passei a corrigir os textos. No começo, na redação, que ficava no cruzamento da avenida Ipiranga com a São João, na capital paulista, e, depois, em minha casa, em Osasco, recebendo-os pelo correio eletrônico. O que para mim era uma honra – trabalhar em uma revista que tinha como colaboradores Luís Edgar de Andrade e Heródoto Barbeiro, se é que o texto destes mestres do jornalismo brasileiro precisava de alguma revisão – acabou sendo uma grande frustração, porque, assim que revisei três edições, os textos pararam de ser enviados para mim. Sem ser informado do motivo da inesperada interrupção, descobri por que ao abrir a edição com a qual a revista comemorou seus treze anos e ver no expediente o nome da pessoa que havia ocupado meu lugar. Acreditando na conversa de quem havia aberto as portas da revista para mim, esperei tanto algum pagamento pelo serviço prestado que acabei esquecendo o lamentável episódio, ou, melhor, deixei para ele ser lembrado como exemplo do excesso de boa-fé de uns e da falta de senso de justiça de outros, coisas que, infelizmente, fazem parte do mundo do trabalho, como deve saber muito bem quem trabalha como autônomo. Outra roubada inesquecível em minha penosa e malpaga carreira de revisor foram as correções que fiz em 2003 para uma editora de revistas. É por estas e outras que, paciente demais para o gosto de minha mulher, continuo achando que mais vale receber um pagamento atrasado ou parcelado do que um cheque sem fundo.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Lauda não é página

A autora de uma tese que revisei recentemente ficou desesperada quando informei o preço do serviço. É que, devendo não ter entendido bem quando expliquei como se cobrava pelo trabalho, que, para não variar, era para ontem, ela achou que lauda fosse página. Não é, até porque nenhum texto é igual a outro, cada um tem sua formatação (margem, tamanho de letra, tipo de fonte e formato de papel), influenciando no número de páginas, da mesma forma que cada revisor tem sua lauda, que pode ser de 1.250, 1.400, 1.800 e 2.100 caracteres, e seu preço. Isso mesmo, lauda é a quantidade de toques, incluindo o espaço, em um texto. Para não precisar da ajuda de calculadora na hora de saber a quantidade laudas, uso a lauda de 1.000 caracteres, número pelo qual divido a quantidade de caracteres do texto a ser revisado, que, no meu editor de texto, aparece quando se clica nas opções “Revisão” e, dentro desta, “Contar Palavras”, que se encontram na parte de cima da página, ou clicar na opção “Palavras”, no rodapé. Por exemplo, nos 1.635 caracteres deste texto, há 1,6 lauda. Mas não importa o tamanho da lauda, porque o que conta mesmo é seu preço, ou seja, quem cobra, por exemplo, R$ 5 por uma lauda de 1.000 caracteres cobra o mesmo que cobra quem trabalha com uma lauda de 1.250 (R$ 6,25), 1.400 (R$ 7), 1.800 (R$ 9) ou 2.100 (R$ 10,5). Mais interessado em correr o risco de ser chamado para fazer outros trabalhos da pessoa para a qual eu havia sido recomendado e ser indicado por ela para outras pessoas do que fazê-la ficar em uma saia justa na hora de pagar, fiz de conta que as quase 250 laudas revisadas fossem cerca de 100 páginas!